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O espaço das pequenas coisas

O espaço das pequenas coisas

27
Jan21

Kit de Sobrevivência XVI - Afonso Cruz

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“Perder o lugar

A classe média envenenou-se num sofá de passividade sedentária. Receamos mais perder o nosso lugar no sofá, especialmente o que fica mesmo em frente à televisão, do que perder a liberdade ou a dignidade, que nos são subtraídas quotidianamente sob a aparência de novas leis económicas.” Afonso Cruz in “Jalan jalan: uma leitura do mundo”

 

 

Numas eleições profundamente marcadas pela pandemia, com uma taxa de abstenção de 60,51% lembrei-me deste texto de Afonso Cruz a propósito da apatia cívica que se vive no nosso país. Como disse Ricardo Araújo Pereira, não é falta de interesse na política, já que os programas onde se discute política como “Isto é gozar com quem trabalha”, “Governo Sombra”, “Circulatura do Quadrado” são dos programas com maior audiência, segundo o próprio conta.

 

Então porque não vão os portugueses às urnas? Quem são estes portugueses? Talvez alguns estejam descontentes com “o sistema”, o que é compreensível com sucessivos escândalos: crimes à vista de todos e onde a maioria sai impune, favores a amigos, cunhas entre familiares, fugas de informação em casos judiciais para os jornalistas. Onde está a Democracia? Aquela iniciada pelos gregos na qual os cidadãos livres atenienses, filhos de Mãe e Pai atenienses, maiores de 21 anos e que tivessem cumprido o serviço militar podiam participar na vida política? Será que evoluímos tão pouco em 2500 anos que a democracia continua a ser válida para uns e a excluir outros?

 

Naturalmente, o dado mais preocupante da noite foram os 490 mil cidadãos que votaram num candidato de extrema-direita populista. Mais do que lamentar ou criticar, é necessário focar a nossa atenção para estes cidadãos, perceber quem são, compreender as suas razões e agir sobre elas. Alguns dados preliminares recolhidos pelo Público mostram-nos que a distribuição da votação no dito candidato foi relativamente espalhada por todo o país, à exceção do Porto.

 

Sobre o Porto gostaria de fazer uma nota. Desde 1832, no Cerco do Porto, que a Cidade Invicta se apresenta como a grande defensora da Democracia em Portugal. A primeira tentativa de implantação de um regime republicano ocorreu no Porto a 31 de Janeiro de 1891 que daria lugar à efetiva implantação da república a 5 de Outubro de 1910, em Lisboa. Além disso, nunca podemos esquecer o Grupo dos Democratas Independentes Porto que lutou, durante as décadas de 50, 60 e 70 pela democracia portuguesa, organizando a candidatura do General Humberto Delgado em 1958.

 

Com isto não quero dizer que o partido seja ilegal como ouvi Ana Gomes e Marisa Matias reclamar nos debates presidenciais. Um partido legalizado pelo Tribunal Constitucional é legal e tem o direito a existir, a ser multado quando comete crimes seja de discriminação, incitação ao ódio e à violência, corrupção ou outros. E não cabe ao Presidente imiscuir-se nos assuntos do Tribunal Constitucional já que a Democracia prevê a priori independência entre poderes.

 

Assim, não olhemos com passividade para os resultados e não nos entreguemos a justificações fáceis. Procuremos a verdade, cuidemos dos nossos cidadãos, ouçamos as suas dificuldades e sejamos mais tolerantes. A favor da democracia, sempre.

24
Jan21

A Democracia prevaleceu

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Fotografia: Getty Images

 

No seu discurso da Inauguração, Joe Biden vaticina: “a democracia prevaleceu”. Parece um contrassenso, vaticinar no pretérito perfeito, mas, há apenas duas semanas, o mesmo edifício onde decorreu a Inauguração foi invadido num acto de terrorismo doméstico. Assim, e apesar de sentir uma enorme onda de esperança lá, do outro lado do Atlântico, só posso considerar como uma profecia que a Democracia prevaleceu.

 

Decidi investigar mais a fundo os eventos de 6 de Janeiro, consultei um projeto de uma ONG que está a recolher todos os vídeos desse ataque. No link é possível ter uma visão cronológica dos eventos, desde os protestos no comício de Donald Trump em Washington DC até aos momentos chocantes dentro do Capitólio. São horas de clipes de vídeos, alguns de poucos segundos, outros de alguns minutos, mas em todos é possível observar o tom crescente da raiva gritante. Também é possível distinguir diferentes grupos de pessoas: grupos organizados com uma missão e conhecimento do edifício claros, gangues armados com o objetivo de destruir o máximo de coisas possíveis e pessoas comuns zangadas com o sistema se viram envolvidas numa ação de terrorismo doméstico.

 

Fiquei muito tempo a ver estes vídeos, a olhar para estas pessoas e a interrogar-me se nem por um momento elas terão pensado na Instituição onde estavam a entrar ou no atentado à Democracia que estavam a cometer.

 

O meu irmão contou-me que nos jogos de futebol, há um efeito de grupo, as pessoas comportam-se de forma irracional, dizem coisas que nunca diriam fora do estádio, algumas insultam o árbitro, fazem ameaças, até atiram coisas ao campo. Lembrei-me do que o meu irmão disse, talvez estas pessoas normais zangadas com o sistema tenham sido apanhadas pelo poder de grupo e assim vão ser condenadas por terrorismo doméstico.

 

Por isso volto ao discurso de Joe Biden, a Democracia não é garantida. Temos de lutar por ela todos os dias, em particular hoje. Votem em segurança. Mas votem.  

20
Jan21

Kit de Sobrevivência XVI - Martin Luther King Jr

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A Terra Prometida, finalmente

 

Hoje acordei com esperança. Sim, os números de novos casos e mortes de covid em Portugal são os mais elevados do mundo. Sim, fiquei chocada com o comportamento das pessoas na orla marítima durante o fim-de-semana. Sim, desespero pelo nosso Serviço Nacional de Saúde, pelos nossos profissionais de saúde, os trabalhadores na linha da frente, os que perderam o seu emprego.

 

Mas hoje, meu caro leitor, acordei com esperança. Porque a partir de hoje, os Estados Unidos da América, país líder mundial da democracia (ou assim ainda esperamos), tem um novo Presidente em Joseph R Biden Jr. Hoje o mundo fica um pouco melhor, um pouco mais em paz, um pouco mais tranquilo, um pouco mais seguro, um pouco mais bonito.

 

Joe Biden é um homem de fé, capaz de através da sua história inspirar milhões de pessoas. Um homem que ultrapassou tanta adversidade, desde a gaguez na infância à impensável perda do seu filho mais velho, depois da perda da primeira mulher e filha. Joe Biden não é um privilegiado pintado de cor-de-laranja, fez 300km de comboio entre Washington DC e Delaware, entre o chamamento de Senador e a família. Teve a coragem de arriscar de novo no amor e saiu a ganhar com Jill Biden, Professora dedicada às famílias militares e à Educação.

 

Hoje acordei com esperança, porque se há alguém que consegue sarar feridas, unir as diferenças, incentivar a escuta e o perdão é o clã Biden. E não estão sozinhos, têm a extraordinária Kamala Harris (ver “Kit de Sobrevivência XVIII - Kamala Harris”) empenhada na luta pela igualdade de género, na reforma do sistema judicial enviesado pelo profundo racismo, na mobilidade social pelas famílias de etnias não-caucasiana, num sistema de saúde universal.

 

Talvez Joe Biden e Kamala Harris possam mesmo encaminhar os Estados Unidos para o seu destino de Terra Prometida. Até que enfim.

17
Jan21

Dança das cadeiras

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Esta semana descobri mais maravilhas da tecnologia. Ao contrário do meu Príncipe que, a cada Natal tem gadgets tão específicos como headphones para correr que são muito diferentes dos headphones para trabalhar e dos headphones para ouvir um podcast/música ao adormecer, eu não sou nada “geek”.

Também não sou tipo a minha Mãe que até há seis meses não sabia ligar a televisão (mas agora até já sabe ligar a Netflix!). Até já mudei dos livros para o Kindle porque os preços dos ebooks são muitíssimo mais baixos.


Quando anunciaram o Confinamento II fiquei muito desanimada, pelo que me refugiei na música.

 

Ao navegar no Spotify descobri uma categoria “Party like it’s...” onde podemos escolher o ano. Fiz as contas, procurei lembrar-me do ano em que comecei a sair à noite, a sensação de antecipação, de um “perigo” bom ao contrário deste perigo horrível que vivemos. Lembrei-me do ano 2005, quando já saía mais regularmente e decidi escolher a playlist.

Imediatamente a voz da Madonna invadiu os meus headphones (do trabalho) e dou por mim a sentir-me um pouco melhor “waiting for your call baby night and day...”. Depois vem Juanes com Shakira numa das minhas “party songs” preferidas “Ay, amor, me duele tanto/ me duele tanto/ que te fueras sin decir a dónde/ ay, amor, fue una tortura perderte”. Depois um som mais pop com as Sugarbabes “If you're ready for me boy/ You'd better push the button and let me know”.

Sinto uma alegriazinha apoderar-se de mim, sorrio e mexo-me na cadeira numa espécie de dança. Mas, de repente, um pensamento cruza a minha «party like it’s 2005: “mas quem era esta pessoa?”»

 

Passaram tantos anos. Na altura parecia-me que andava sempre preocupada com a escola, as amigas, os namorados, a minha identidade. Hoje sinto-me tão distante dessa miúda cheia de potencial. Hoje sou uma mulher, não posso esquecer esta pandemia com uma vodka cola ou duas e uns saltos na pista de dança. Até a minha dança ficou confinada à minha cadeira!

 

13
Jan21

Kit de Sobrevivência XV - Séneca

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Confinamento II

 

Tal como esperado, voltamos a confinar. O Natal foi, para mim, assunto tão penoso que nem consegui abordar aqui neste espaço das pequenas coisas. Talvez porque, olhando agora com a distância devida, o Natal é mesmo uma grande coisa, um daqueles grandes momentos: de união, paz e harmonia.

 

Na minha família somos tantos que temos de celebrar em vários dias e há ainda as festividades entre a família nuclear, primos e a “nova” família. Mas não neste ano. Neste ano, festejámos em núcleo, em tal proximidade que permitiu realmente viver o espírito do Natal: família. Nem por isso deixámos de celebrar, com receitas novas, mesas requintadas e até novas tradições. Por isso, o Natal acabou por se revelar um dia bonito e íntimo.

 

Mas não conheci o meu novo priminho, não abracei os meus Tios e primos, não brinquei com a minha afilhada nem os meus primos pequenos, não os vi a antecipar a chegada do Pai Natal barrigudo e confuso com os presentes a abarrotar e a precisar de ajudantes. Mesmo a escrever estas palavras, as lágrimas insistem em querer deixar os meus olhos. Recomponho-me porque é importante o que quero dizer. Importante para mim, para o mundo quero lá saber.

 

Perdi estes momentos todos, ganhei novas tradições, mas muita gente, pessoas que não conheço, amigos de amigos de amigos, decidiram passar o Natal como se nada se passasse. O nosso próprio Presidente da República disse em entrevista que ia fazer 3 Natais como se fosse “antigamente” (i.e., pré-covid). E agora, como os jornalistas adoram dizer, “calhou-nos a fava”. É que eu detesto mesmo bolo-rei.

10
Jan21

Bem-vindo 2021!

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Foto por: Anamor

 

A Porto Editora anunciou esta semana que a palavra do ano 2020 foi “saudade”. Faz sentido se pensarmos na singularidade da palavra, naquilo que a torna tão especial, tão portuguesa.

 

Lembro-me desse 12º ano, desses tempos místicos, da minha Professora falar sobre Fernando Pessoa e o movimento saudosista. Jamais esquecerei o que a minha Professora de Português disse: “saudade é uma palavra unicamente portuguesa. Ao contrário do que muitos pensam, saudade não é a tristeza causada pela ausência de algo ou alguém, mas a melancolia de algo que nunca se viveu, «do que há-de vir».”

 

Assim, talvez 2020 seja mesmo um ano que deixará saudade, pelo que nunca foi nem nunca poderá ser. A ausência absoluta de tanto: amigos, família, ocasiões importantes, abraços, trabalho, festas, tudo emaranhado num novelo que só o tempo e, com esperança, 2021 poderão desenrolar.

 

Começámos o ano com a notícia quase inacreditável de que o país estava, de facto, preparado para a chegada das vacinas e, com a prontidão do relógio de cuco do meu Avô, a vacinação começou a 27 de Dezembro de 2020.

 

Mas eis que, a 6 de Janeiro de 2021, os Bullies saíram da toca diretamente para o Senado, nos Estados Unidos, e para os debates presidenciais, em Portugal.

 

Ao ouvir o debate entre os candidatos mais à direita de Portugal, não pude deixar de apreciar a calma de Tiago Mayan Gonçalves perante o ruído permanente, comportamentos só vistos e aceites num estádio de futebol. Curiosamente, quando o candidato da Iniciativa Liberal se aproxima da “ferida que arde”, o seu oponente recusa, dizendo que tanto lhe faz se é do Benfica ou do Porto. A única pessoa por quem o candidato de extrema-direita radical parece ter o mínimo respeito é o atual Presidente da República, que o acusa no momento derradeiro do debate entre os dois de ter duas caras, ou melhor, dois tons: um quando vai a Belém, e outro nos debates. Poderá porventura abrir uma janela sobre como se desmascaram e combatem os populistas, os xenófobos, os demagogos, os sedentos de poder, os troca-tintas: com amabilidade e frieza, expondo cada um dos seus mitos.

 

Felizmente não escalámos ainda até Washington, onde um grupo de supremacistas brancos invadiu a instituição mais sagrada da Democracia: o Senado. A isto se chama um ato de terrorismo doméstico.

 

É por isso que, mal por mal, prefiro viver num país “de brandos costumes”, porque tenho saudades do que há-de vir. Um tempo de abraços, amor, paz, jantaradas e viagens, muitas. Enquanto o nevoeiro ainda paira, fiquemos atentos àqueles que ameaçam a nossa democracia.

06
Jan21

Kit de sobrevivência XIV - Provérbio Chinês

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Todos os anos, independentemente de alguns desejos e objetivos mais concretos, este provérbio chinês é a minha guia, o meu farol no breu da noite. E que noite foi esta!

 

Depois das férias, parece que nem sei bem como escrever. As palavras formam-se no meu cérebro, os meus dedos percorrem o teclado, mas é tudo como da primeira vez. Não é como andar de bicicleta, é mais como conduzir um carro daqueles antigos.

 

Primeiro, a embraiagem parece estar um pouco enferrujada, as ideias formam-se sem um pensamento condutor. Mas, eis que o motor com sonoro “ainda estou aqui” começa a trabalhar, e torna-se mais claro para onde a minha mente vai. O caminho aparece claramente, sem precisar de GPS e o horizonte começa a surgir lá ao fundo. A ferrugem vai cedendo com os movimentos no teclado e o pó vai espairecendo com as janelas abertas para um mundo de possibilidades.

 

Por hoje, fico-me por aqui. Domingo há mais. Feliz 2021!

20
Dez20

O melhor de 2020

 

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2020 não foi o ano que muitos de nós esperávamos. Quem podia prever uma pandemia (além do Bill Gates)? Quem podia prever que íamos passar quase 3/4 do ano confinados às nossas casas, às nossas famílias (se tivermos sorte), aos nossos pensamentos e sentimentos, ao nosso corpo e às suas constantes necessidades?


Mas 2020 foi também o ano de “cortar a gordura” (só metaforicamente como a balança constantemente me relembra) e ficar com o fillet mignon.

 

Para muitos, significou desapegar-se de bens materiais, fazer limpezas enormes, arrumar aquela “gaveta das pilhas”, começar a reciclar.

 

Para outros foram decisões mais saudáveis como cortar na carne, fazer mais exercício físico, dar passeios, nadar no mar, correr, fazer yoga.

Mas há ainda quem tenha tomado grandes decisões: restringir o ciclo de pessoas essenciais, o que levou a divórcios, conflitos familiares, tensões entre amigos.

 

Sobretudo, o que 2020 nos mostrou é que podemos e devemos viver de acordo com os nossos valores e quem está mal, não faz falta.

 

Porque em 2020 aconteceram muitas coisas boas: perante um evento completamente inesperado e assustador, tivemos de aprender a viver de uma forma diferente.

 

Tivemos a oportunidade de viver com menos coisas, mas com maior intimidade.

 

Pudemos conhecer os nossos vizinhos e dar uma mão amiga, nem que fosse só um bom dia atrás da porta.

 

Quando as coisas se tornaram mesmo assustadoras, com um simples gesto como bater palmas, pudemos agradecer aos nossos trabalhadores essenciais o acto heróico que escolhem prestar todos os dias.

 

Aprendemos a cozinhar novos pratos ou a fazer bolos ou bolachas, muitos aprenderam a fazer pão. Lemos tanto e livros tão bons que fizemos a boa e velha troca de livros sem covid nem nada!

 

Vimos séries e filmes que nunca teríamos visto, sacudimos a poeira dos jogos de tabuleiro da nossa infância. Alguns de nós tiveram melhor perder, outros nem tanto.

 

Ligamos a amigos, vimos as brincadeiras dos filhos através do telefone. Experimentámos novas danças, máscaras ou receitas de apps claramente feitas para audiências mais novas. Vimos Tios e Tias usarem poderes mágicos para se ligarem ao zoom para cantarmos os parabéns, rimos do ridículo destes tempos.

 

Perdemos amigos, familiares, conhecidos. Vimos tantas notícias que o nosso cérebro ficou em papa. Mas vimos também eleições Estados Unidos com um sentido de esperança no profundo azul do olhar de Joe Biden.

 

Todos os anos o meu desejo é o seguinte: “comer metade, andar o dobro e rir o triplo” (provérbio chinês). Se possível, abraçar mais tanto melhor. 

O melhor de 2020, para mim, foi escrever aqui n'O espaço das pequenas coisas e ter tantas pessoas a  caminhar comigo. Tem sido uma honra. Obrigada e até 2021!

 

 

16
Dez20

Kit de Sobrevivência XIII - Gabriel García Márquez

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O amor nos tempos de covid

 

Quando era adolescente, a Mãe frequentemente murmurava “todas as discussões começam por causa de um sabonete”. Na altura, não reconhecia como a Mãe era cool, com o seu pilates tão à frente do seu tempo, com as jóias da sua Avó, com as suas mãos de Mãe sempre prontas a sossegar os meus medos, mesmo quando a minha adolescência a rejeitava.

 

Aos 22 anos, finalmente, decidi ler “O amor nos tempos de cólera” de Gabriel Garcia Márquez e percebi porque “todas as discussões começam por causa de um sabonete”, pela mesquinhez, pelas pequenas coisas que reabrem velhas feridas. Naquele momento decidi que se algum dia tivesse a sorte de encontrar um amor tão grande como Florentino e Fermina ou Jim e Pam (versão moderna da série “The Office”), lutaria por esse amor com toda a minha energia até a completa exaustão.

 

Felizmente, alguns anos mais tarde, tive a sorte de encontrar um Príncipe Encantado. Desde o início soube que a nossa história seria daquelas dos filmes, mas quem podia imaginar tudo o que passámos?

 

Depois o covid obrigou-nos a mudanças radicais. De repente, tivemos que vir para casa, trabalhar a partir de casa, viver 24/7, cozinhar juntos, planear as refeições, compras e limpeza. Pela primeira vez, tivemos que nos olhar sem a correria do dia-a-dia, sem o ruído do trabalho, sem artefactos, observar o verdadeiro estado da nossa relação e decidir como viver este tempo.

 

Felizmente, temos o mesmo sentido de humor e conseguimos criar um plano, tivemos o apoio da nossa família e amigos, o amor mútuo. Durante estes meses só nos abraçamos mutuamente, o que nas nossas famílias alargadas é muito estranho. Começamos a jogar damas, xadrez, sobe e desce, glória e todo o tipo de jogos de tabuleiro e inevitavelmente o meu Príncipe ganha (tenho de estar mais atenta às minhas damas!).

 

Ultimamente temos feito da sexta-feira uma “date night” surpresa, cada um organiza à vez. O mais importante é nunca desistir. Quando se encontra um obstáculo, é importante manter uma visão comum, nem que demore 53 anos até atingi-la. O amor vale sempre a pena.

13
Dez20

Bloqueio de escritor

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Há algumas semanas que ando com o que se chama na gíria de “bloqueio de escritor”.


Comecei a senti-lo depois das eleições nos eleições nos EUA. Investi tanto nesse período, durante dias lia, via e consumia tudo o que fosse sobre Kamala Harris, Joe Biden, Jill Biden, sondagens, estados, história e, sinceramente, senti-me realizada.


Senti que podia falar confortavelmente sobre o assunto e, mais importante, senti que podia escrever sobre o assunto com algum grau de segurança.


Depois, tal como Tal Ben-Shahar, descreveu no seu livro “Happier”, senti um enorme vazio no lugar daquela excitação toda do dia-a-dia de me preparar como se de uma jornalista me tratasse.


“Escreve sobre a tua vida” sugeriu o meu Príncipe. O espaço das pequenas coisas não é uma coluna de mexericos, nem um muro das lamentações, nem uma festa da aniversário. É mesmo assim: um espaço de pequenas coisas.


Então comecei a pensar nas pequenas coisas que me têm feito aguentar esta pandemia: acordar e tomar o pequeno-almoço com o meu príncipe e poder ouvir partilhar algum sonho ou simplesmente estar em silêncio, ouvir o meu podcast preferido “Office Ladies” enquanto lavo a loiça do almoço, cozinhar uma receita nova e inventar em algum passo, ler durante horas as crónicas de outros e esperar que, com isso, me inspire também, ver séries e filmes, caminhar muito, o ar fresco da manhã, fazer yoga e pilates, ouvir música na nossa coluna nova, almoçar com os meus Pais e provar as receitas novas da minha Mãe que ela também aldrabou um passinho, ouvir o meu Pai a contar a mesma história, ficar fascinada com a forma e as histórias que o meu irmão conta, correr atrás do nosso gatinho, ser mordida e arranhada, repreende-lo, ser mordida outra vez.


Todas estas pequenas coisas e muitas mais têm afinal tornado os meus dias, dias felizes, dias completos, dias bons. E começo a pensar que este “bloqueio de escritor” talvez esteja só na minha altíssima expectativa que estabeleci para mim própria e o melhor será continuar e desfrutar da viagem porque, afinal, a vida é tão boa.

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