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O espaço das pequenas coisas

O espaço das pequenas coisas

11
Nov20

Kit de Sobrevivência VIII - Kamala Harris

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Kamala Harris, no seu discurso de vitória da Vice-Presidência dos EUA, falou sobre a importância do papel da mulher nas eleições. Desde o movimento das Sufragettes, até ao Maio de 68, aos movimentos cívicos nos EUA, as mulheres sempre tiveram um papel central na democracia, ofuscado, frequentemente, pela imponência das normas e costumes da época.

 

Tudo foi pensado com o maior rigor. Desde logo, a música com que entra no palco, “Work that” de Mary J. Blige, um hino ao amor-próprio, à auto-confiança, à esperança e à ambição. Depois, o fato branco que representa o feminismo e a igualdade de oportunidades, e que já havia sido usado pelas congressistas democratas durante o discurso do Estado de União de Trump em 2019, o que desconcertou absolutamente o então Presidente.

 

O entusiasmo que Kamala provoca é audível, o seu sorriso contagiante, o seu olhar bondoso e atento fazem-nos sentir que tudo é possível, até unir um país profundamente divido.

 

Começa o seu discurso, naturalmente, com as palavras de John Lewis “a democracia não é um estado, é um acto”. Estas palavras, tão simples e tão complexas, relembram-nos de um dos debates mais acesos que tenho com família e amigos e que podem ser lidos ao longo das minhas crónicas. A democracia não é garantida, é preciso lutar por ela todos os dias, mantendo-nos informados, votando em consciência, refletindo, conversando com aqueles que nos são próximos e, sobretudo, motivando os outros para a cidadania ativa.

 

Kamala Harris dedicou a sua vida à cidadania ativa. Filha de pai jamaicano e mãe indiana, após o divórcio dos pais, a nova Vice-Presidente cresceu com a Mãe, o Avô e a irmã no estado da Califórnia. Escolheu estudar ciência política e economia na Universidade de Howard, uma universidade historicamente predominantemente afro-americana e aderiu à sorority “Alpha Kappa Alpha” (AKA), uma organização que lutava pelos direitos cívicos. Em 1989 a ex-Senadora formou-se em Direito na Universidade da Califórnia, entrando para o equivalente à Ordem dos Advogados em 1990.

 

Na sua carreira como Procuradora de São Francisco destaca-se o caso do agente Isaac Espinoza, morto a tiro por David Hill, um afro-americano de 21 anos. A “sociedade” pedia pena de morte, mas Kamala Harris, como havia prometido na sua campanha segue outro caminho. Aliás, a então Procuradora, afirmava que existe um enorme enviesamento judicial e que o sistema judicial deve reabilitar e não condenar.

 

Assim, um ano mais tarde, nasce “Back on Track” (BOT): um programa destinado à reabilitação social de jovens condenados pela primeira vez por um crime relacionado a posse, consumo ou venda de drogas. Ao abrigo do programa, os jovens eram condenados mas cumpriam a sua pena com vista à sua reintegração na sociedade.

 

Alguns anos mais tarde, Kamala Harris, tornar-se-ia Procuradora do Estado da Califórnia, cargo no qual foi rigorosa, mas justa. Esteve envolvida em muitos casos criminais, da reforma penal e crise habitacional, às grandes empresas de gás, petróleo e banca.

 

Em 2016, com a reforma da Senadora Barbara Boxer, abre-se o caminho para “sangue novo” e Kamala Harris, ganha o seu lugar no Senado por uma larga margem. Como Senadora, foi defensora da despenalização do aborto, de uma política de imigração inclusiva e, fundamentalmente, do Green New Deal: um pacote de medidas de criação de emprego sustentável para o ambiente e um plano de saúde e educação gratuito para toda a população, assente na taxação das indústrias do armamento, farmacêutica, tecnológica.

 

Em 2020 decide candidatar-se a Presidente dos EUA. Vista como demasiado progressista por uns, demasiado liberal por outros, acaba por desistir da corrida presidencial e, em Agosto de 2020, é anunciada como candidata a Vice-Presidente.

 

Numa conversa com Barack Obama, Kamala Harris, revela o seu segredo para começar bem o dia: treinar. Conta que todos os dias treina, que é a sua forma de aliviar a tensão e que mantém uma dieta maioritariamente sul-indiana (vegetariana). Mas talvez o aspeto mais enternecedor desta mulher de 55 anos seja a sua relação com Douglas Emhoff. Em 2014, aos 49 anos, depois de se conhecerem num blind date, e de um breve namoro e noivado, decidem casar numa cerimónia presidida pela irmã de Harris. Emhoff, um advogado da indústria do entretenimento bem-sucedido, com dois filhos já crescidos de uma relação anterior, parece ser o pilar de Kamala Harris.

 

Kamala Harris será a primeira a entrar para a Vice-Presidência, mas deixará a porta aberta para todas as mulheres que tenham a coragem acreditar em si mesmas.

08
Nov20

We did it, Joe

Vídeo original: Conta pessoal de Instagram de @KamalaHarris

 

Depois de dias de contagem de votos, vantagem inicial para Trump na Flórida (estado quase sempre preditor do vencedor das eleições), uma viragem histórica na Geórgia graças a Stacey Abrams que ajudou a registar centenas de pessoas para votarem pela primeira vez nas suas vidas, e, finalmente, à cidade de Filadélfia, na Pensilvânia, que fechou a votação em Joe Biden e a sua Vice-Presidente Kamala Harris.

 

Muitos foram os momentos emocionantes vividos nos últimos dias, desde as madrugadas entre a CNN e BBC International, a Sic Notícias e a RTP3 até aos updates constantes do New York Times, The Guardian, Expresso e Público. Nunca deixa de me surpreender o trabalho notável do jornalismo sério e corajoso de pessoas como Anderson Cooper, Van Jones, Ana Lourenço, Luís Costa Ribas, Márcia Rodrigues, José Rodrigues dos Santos, Ricardo Costa, Martim Silva, José Cardoso, Miguel Cadete e um agradecimento especial a Rui Tavares e Ricardo Araújo Pereira, como sempre inspiradores com as suas crónicas sagazes.

 

Às 16h43 de Sábado, 7 de novembro de 2020, soubemos que Joe Biden será o próximo Presidente dos EUA e Kamala Harris Vice-Presidente. É um momento histórico porque permite reparar um país profundamente dividido, é o homem certo na hora certa. Ao longo da sua carreira política, Joe Biden, ficou conhecido por facilitar acordos entre Democratas e Republicanos, é natural que o faça enquanto Presidente. Alguns dos desafios imediatos são o descontrolo total da pandemia, o racismo, a violência policial, o sistema de saúde, reintegrar a ONU e o Acordo de Paris, entre outros. De futuro, deverá reparar as relações com a Europa e rever a política externa, impor regras apertadas ao acesso às armas, implementar programas de fiscalização às empresas de Silicon Valley.

 

Como este é, afinal, o espaço das pequenas coisas, partilho o momento mais significativo para mim: a eleição de uma mulher, negra e indiana, para o cargo de Vice-Presidente dos EUA. Uma mulher madura, inteligente, afável, enérgica e inspiradora. Num vídeo partilhado nas redes sociais, a nova VP aparece em roupa de ginástica, ao telefone com o novo Presidente e diz-lhe “Conseguimos, Joe!”. Nem no dia da vitória deixou de treinar porque, como disse em “entrevista” ao Presidente Barack Obama, treinar é o seu segredo para lidar com a ansiedade do dia-a-dia. Bem-haja.


Hoje é um bom dia para o mundo, de repente há menos ruído e conseguimos ouvir-nos uns aos outros, a Natureza, a música e a nós mesmos. Os próximos 4 anos prometem.

04
Nov20

Kit de Sobrevivência VII - The Dalai Lama

KS VII The Dalai Lama.png

À hora a que escrevo esta crónica não sabemos os resultados das eleições norte-americanas. Talvez não venhamos a saber durante dias, semanas ou, em último caso, meses.


Tenho vindo a pensar numa conferência a que assisti há uns meses da organização Girl Up com Meghan, Duquesa de Sussex. Anotei vários pontos sobre o seu discurso. “Compaixão é ver dor e sofrimento nos outros e saber que é o nosso dever ajudar a aliviá-lo”. Também me motivou a acreditar em “em nós próprios, no que nos torna únicos, a praticar o bem, mesmo quando é impopular ou nunca foi feito ou se nos assusta”. Gostei particularmente quando disse: “O medo pode ser paralisador mas a resposta está sempre dentro de nós”, senti-me verdadeiramente empoderada. Com a frase “criemos um mundo justo e bom”, traçou o Caminho e quando lhe perguntaram concretamente que passos dar a resposta foi curiosa: “acompanhar as minhas convicções de ações: às vezes é preciso só “deixar correr”, [por outro lado], o trabalho de cada dia vai acumulando e quando damos conta fizemos a diferença”. Mas a minha frase preferida e que uso muitas vezes em momento de crise: “PUSH THROUGH THE FEAR”

Eu sei que estas eleições são importantes. As implicações da vitória de um candidato ou outro são enormes para os EUA e para o mundo como expliquei na crónica Kit de Sobrevivência VI - Anónimo.  

Mas o aspeto talvez mais preocupante dos últimos 4 anos e que não gostaria de ver no futuro para os meus filhos é a polarização política, o extremar de opiniões, a impossibilidade de ouvir outro com cores diferentes das nossas.

Muitas vezes o meu Avô (ver crónica A persistência da memória) contava que todos se encontravam no café “A Brasileira: comunistas, fascistas, infiltrados da PIDE, antifascistas, independentes como o meu Avô, intelectuais, pintores, escritores, artistas de todo o género e por ali ficavam noite adentro a discutir o estado das coisas.

O meu Avô tinha amigos de todo o espectro político, desde comunistas a democratas-cristãos e apreciava conversar com todos porque todos traziam uma perspetiva diferente, todos concordavam em algo e no que não concordavam discutiam como um prazer de café.
Hoje os americanos saem para as ruas com armas cada vez que discordam e interrogo-me muitas vezes o que diria o meu Avô e o seu grupo de amigos que, entre uns cafés e uns cigarros, foram fazendo a revolução antifascista mais pacífica da história da humanidade.

01
Nov20

A persistência da memória

a persistencia da memoria.jpg

Hoje, caros leitores, escrevo-vos já tarde. Era suposto ter saído a habitual crónica de Domingo com uma sugestão de pausa para refletir sobre as pequenas coisas. 

 

Por lapso freudiano ou talvez por destino, esse texto perdeu-se no infinito do cosmos tecnológico. Contudo, como manda a Lei de Laplace "nada se perde, tudo se transforma", nesse texto falava do meu Avô, que tem estado muito comigo nestes últimos dias. 

 

O meu Avô era uma pessoa extraordinária, não só nas grandes coisas, foi um grande antifascista, deputado, advogado e ajudou tantas pessoas, mas também nas pequenas coisas, pois, para mim, era o meu Avô e todos os dias sinto muito a sua falta.

 

O meu Avô não era do tipo de se sentar no chão a brincar connosco como a minha Avó (não a minha Avó da crónica Estado de Calamidade ou "que desgraça!"), mas o meu Avô contava histórias como ninguém, tão detalhadas que parecia que estávamos lá. O meu Avô gostava muito de comer bem, dormir até tarde, ler o jornal, andar a pé, ouvir concertos de música clássica, estar ao pé das suas macieiras e castanheiros, ver a família e os amigos felizes, especialmente a minha Avó. Acho que foi com o meu Avô que aprendi a reconhecer a importância das pequenas coisas.

 

O meu Avô era uma pessoa amada por muitas pessoas, pela sua coragem, pela sua tenacidade, pela sua perseverança. Não é por acaso que escrevo aos Domingos. É que durante anos observei o meu Avô ler todos os jornais e revistas sobre tudo o era sociedade, política, literatura, política externa, tudo mesmo e escrever crónicas admiráveis impressas ao Domingo.

 

Não tenho tamanha ambição, mas acredito que o meu Avô estaria orgulhoso por ter a coragem de tentar, mesmo com quase duas horas de atraso e sem nenhum tipo de preparação. Esta é para si, Avô.

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