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O espaço das pequenas coisas

O espaço das pequenas coisas

31
Mar21

Kit de Sobrevivência XXV - Einstein

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Tenho andado a pensar no navio encalhado no Canal do Suez. Lembro-me perfeitamente de ler sobre esta passagem na Enciclopédia, que é uma coisa que hoje já ninguém faz. O bloqueio deste canal impediu a travessia de dezenas de navios de carga, o atraso na expedição de centenas de artigos.

 

O mais curioso deste caso, para mim, foi o regresso à velhinha rota do Cabo das Tormentas, a única que tornava possível a passagem marítima entre o Oriente e o Ocidente. Não deixa de ser curioso como, às vezes, redescobrimos objetos que adorávamos ou damos um novo propósito às nossas coisas preferidas. Para mim são os livros.

 

Na minha mesinha de cabeceira tenho sempre, pelo menos, dois “montes”: no primeiro,  os livros que estou a ler: um de ficção, um de história ou uma biografia, o(s) livro(s) que quero ler em seguida e o meu kindle. No outro “monte” tenho o que chamo d’O meu cantinho feliz, uma pilha de livros, não mais que três ou quatro, que evocam memórias felizes ou que têm frases de que gosto ou um conceito que me agrada.

28
Mar21

Made in Portugal

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Fotografia: website Tory Burch

Esta semana recebi, no meu grupo digital de amigos, uma série de mensagens sobre Tory Burch. Numa série de mensagens os meus amigos explicaram que a estilista norte-americana tinha à venda no seu website uma camisola que, segundo a mesma, era inspirada no padrão mexicano da sua infância.

 

Abri o link, observei a camisola e notei um certo padrão familiar, especialmente no centro – o escudo português. Li o resto das mensagens. A estilista plagiou o design da camisola poveira, tradicionalmente bordada pelos pescadores da Póvoa de Varzim com lã da Serra estrela e linhas com as cores preta e azul. Um símbolo regional e portanto um verdadeiro tesouro nacional. Como se não bastasse, no website a dita camisola era vendida por 695€, quando a camisola original, leia-se, camisola poveira é vendida por cerca de 80€ na Póvoa do Varzim.

 

Desde então, a estilista fez uma série de manobras numa tentativa de apaziguar as centenas de mensagens nas redes sociais e no website. Inicialmente, corrigiu a descrição do item referindo que se tratava de “inspiração da Póvoa do Varzim”. Depois, emitiu um pedido de desculpa que só incendiou a discussão, particularmente quando a Câmara da Póvoa de Varzim prometeu levar o caso às últimas consequências, particularmente no campo legal. Mas a estilista continuava a vender a camisola por mais de oito vezes o preço original e o Governo Português emitiu um comunicado a admitir também ir a Tribunal lutar contra a apropriação cultural da camisola poveira. Finalmente, no fim-de-semana, a camisola deixou de constar no website e redes sociais da estilista.

 

Em tantos anos de amizade, tratando-se de um grupo tão grande quanto diverso – uns em diferentes cidades em Portugal, outros na Suíça, outros ainda na Suécia…- raramente estamos de acordo. Gosto muito dos nossos encontros pessoais porque são ricos e vivos, mas devo confessar que nem sempre consigo ver todas as mensagens. Considero-me mais uma participante observadora com uma voz desafiadora (ou incendiária, como o meu Príncipe gosta de brincar).

 

Como dizia, em tantos anos de amizade, não me lembro de um momento que tenha gerado um movimento tão unido como este: a Sara, quem nos alertou, denunciou o caso nas suas redes sociais, comentou no website e mobilizou-nos com a sua liderança para manifestar o apoio à camisola poveira e até o Francisco e o Guilherme, que raramente se envolvem em casos que não impliquem política (e por isso minhas almas-gémeas dentro do grupo), comentaram nas redes sociais, exigindo o fim da exploração da camisola poveira.

 

Quero deixar claro, caro leitor, que não sou a favor deste movimento de cancel culture porque muito se perde com a marginalização de autores. Contudo, neste caso, em que a inspiração é um plágio descarado parece-me necessário que além da camisola ser retirada exista uma indeminização à Câmara da Póvoa de Varzim e uma séria inspeção aos padrões em que a estilista se “inspira”.  

24
Mar21

O Espaço das Pequenas Coisas 2.0

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Começou no 2º ano, logo quando aprendi a escrever. Uma voz dentro de mim suspirava histórias sobre heróis e vilões, sobre a História e o Ambiente. Escrever era uma necessidade absoluta.


Com 9 anos eu e a minha melhor amiga escrevemos a nossa primeira adaptação do filme “O Príncipe do Egipto”, mas já com 8 anos escrevíamos “manifestos” sobre a sustentabilidade, a reciclagem e o meio ambiente.


Desde que me lembro escrevia diários tão longos e dramáticos que “O Diário da Nossa Paixão” parecia um conto de fadas para crianças. Não sei bem como surgiam as histórias que eventualmente acabavam nestes diários mas, ao ler um dos livros de David Sedaris, relembrei como a realidade não é objetiva, é apenas uma história que contamos a nós próprios.


Quando era adolescente comecei a escrever sistematicamente, a abrir os meus horizontes, a imaginar personagens totalmente distantes de mim. Uma vez escrevi uma história do ponto de vista de um canário amarelo aristocrata que desprezava a raça humana.


Durante a faculdade lia sobretudo livros e artigos densos e científicos, o que limitou o meu mundo e o meu vocabulário. Tornei-me “goal oriented” e deixei as longas horas de imaginação da minha adolescência para trás.


Quando comecei a trabalhar não tinha tempo para formar um pensamento que não fosse sobre o trabalho. Estava tão sobrecarregada que não me lembro de nenhum evento, nenhuma conversa, nada.


Depois o meu mundo parou e eu tive tempo. Para pensar, para ler mais e melhor, para respirar outra vez. E então comecei a escrever. E assim surgiu O Espaço das Pequenas Coisas.


No início horrorizava-me a ideia de que alguém pudesse ler o que escrevia e não disse a ninguém. Mas à medida que o leitor - desconhecido até então - foi expressando as suas opiniões e assim apropriando-se deste espaço que também é seu, senti-me mais confiante e escrever voltou a ser uma necessidade.


Há um ano escrevi a primeira crónica e, por isso, é natural que celebremos com um espaço mais bonito para criar mais pequenas coisas.

21
Mar21

Novo ano, as pequenas coisas

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Há quase um ano escrevia a minha primeira crónica aqui, n’O Espaço das Pequenas Coisas.


Numa altura em que o mundo parecia girar tão rápido, com ciclos de notícias e a incerteza sem fim, era nas pequenas coisas que encontrava refúgio para o meu coração acelerado, a minha mente constantemente perdida em pensamentos ruminativos.


Um ano depois, as minhas pequenas coisas foram aumentando em espaço, como o amor de uma Mãe se multiplica com a chegada de um novo filho.


Fui encontrando novos hábitos para me manter enraizada na minha visão - de onde venho, para onde quero ir - e fui ganhando coragem para voltar à minha rotina, mesmo quando falhava um dia ou às vezes uma semana.


Agora podemos rir desse tempo do House Party, da minha certeza na Páscoa em 2021, de todos os pratos de Chef queimados. Rir com compaixão pela ingenuidade, afinal, a esperança é o sentimento mais humano.


Talvez para o ano possamos rir de alívio ou então de exaustão ou descontentamento. Seja como for, continuarei a escrever porque nas palavras encontro o meu maior conforto e talvez o leitor possa encontrar também.

17
Mar21

Kit de Sobrevivência XXIV - Schopenhauer

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Há um ano perdemos coletivamente a primeira pessoa para a covid-19. Há um ano entrávamos em confinamento.


Tenho passado muito tempo só. Não é bem só, é comigo mesma que é muito diferente. Como já escrevi em várias crónicas, esta pandemia fez-me questionar a vida que levava, os hábitos que tinha, a forma como investia o meu tempo.


Não foi logo nos primeiros dias, talvez só duas semanas depois do início do confinamento é que senti um desconforto, como uma cobra rastejante no Verão.


A princípio não liguei, procurava desenfreadamente novas formas de adormecer a dor que via em todo o lado, o medo que sentia.


Mas no início de Abril, era inegável a necessidade de parar, refletir, passar tempo comigo própria. Olhar bem no espelho, (re)conhecer-me, ver o que gostava, observar o que não gostava e decidir o que fazer.


A primeira coisa que fiz foi estabelecer uma rotina que me impedisse de cair na espiral do esquecimento, no poço das redes sociais, nas séries e filmes, nos livros e imaginação.


Depois percebi que era fundamental apanhar sol e todas as manhãs vestia um top de ginástica e ali mesmo na varanda do nosso apartamento, com vizinhos e tudo, lia durante um bocado ao sol.


O resto veio por arrasto: yoga ou alongamentos, pilates ou caminhadas, o importante era mover-me.


Comecei a escrever e assim nasceu O Espaço das Pequenas Coisas. As crónicas seguiram-se umas às outras e as ideias não paravam. Quem diria que tenho tanto para dizer?


Ultimamente a inquietação tem sondado as minhas noites como aquela cobra no Verão. Mas desta vez sinto que temos razões para ter esperança.

14
Mar21

It must be very nice to be you

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Esta semana assisti a mais um brilhante e comovente filme de Sofia Coppola “On the rocks”, no seu reencontro com Bill Murray e a brilhante performance de Rashida Jones.

 

Os filmes de Coppola passam, na maioria das vezes, ao lado das grandes cerimónias e ainda bem, assim ficam num cantinho do mundo para descobrir num dia chuvoso ou numa crise de identidade.

 

O filme conta a história de Laura, uma mãe e escritora com "bloqueio de escritor", que desconfia que o marido a anda a trair com uma colega de trabalho da sua nova startup. Ao contar a sua teoria ao Pai, os dois embarcam numa viagem pela Nova Iorque dos anos 70 e 80 com os icónicos Carlyle Hotel e 21 Club, onde Felix parece conhecer e seduzir toda a gente.

 

Numa cena fulcral do filme Laura desabafa: “E se tudo o que descobrirmos for que o Dean está ocupado e eu estou numa rotina?”.

 

É um verdadeiro desafio para as famílias os diferentes ritmos entre homens e mulheres, a diversidade de tarefas subtis das mulheres e a singularidade e notoriedade do trabalho da maioria dos homens. A desigualdade de género no trabalho é real mas vai além disso, existe claramente um desequilíbrio no reconhecimento do trabalho pago e não-pago, como este que o leitor, se chegou até aqui está a ler.

 

Penso que o filme capta muito bem o sentimento de Laura não se sentir interessante o suficiente, ao ponto de embarcar numa aventura com o Pai enternecedor mas inconsistente no seu amor e presença. As loucuras que fazemos por amor.

10
Mar21

Kit de Sobrevivência XXIII - Meghan, The Duchess of Sussex

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No dia 8 de Março celebramos o Dia da Mulher. A UN Women define a necessidade de celebrar este dia pelas seguintes razões:

1) Celebrar e refletir no progresso conseguido nos direitos das mulheres;
2) Um dia para exigir o fim da desigualdade de género.


A desigualdade de género é visível em todos os campos da nossa vida, enquanto mulheres: no trabalho, no acesso à igualdade salarial e à progressão da carreira; em casa, na distribuição do trabalho não-pago, i.e., tarefas domésticas, cuidado dos filhos; na educação dos filhos, no acompanhamento a consultas, na própria educação.


Algum progresso tem sido conseguido desde o tempo da minha Avó, mas a minha Avó já era a única mulher que usava calças na sua vila, não estudou porque gostava mais da vida social, pintava o cabelo de loiro e fumava o que era um escândalo numa pequena vila do Centro de Portugal.


A minha Mãe participou em movimentos estudantis na altura do 25 de Abril, fez dois cursos (num deles já estava grávida de mim), continua a estudar e trabalhar até hoje e é a pessoa mais independente que conheço.


No entanto, não é suficiente. Há ainda, em Portugal e no mundo, meninas e adolescentes, que querem estudar e não podem por motivos familiares ou financeiros, pela religião ou cultura, pela guerra ou desastres naturais, pela fome e pobreza. Isto é inaceitável. Tudo isto é inaceitável.


No mesmo dia, estreou a aguardada entrevista de Oprah aos Duques de Sussex. Ao ouvir Meghan, Duquesa de Sussex descrever o racismo e abuso que viveu senti-me zangada, chocada, triste e incrédula. Ninguém devia sofrer em silêncio.


Por isso, o meu desejo para este dia da mulher é que nos aceitemos por quem somos e não pelo que fazemos, que tenhamos a coragem de usar a nossa voz e criar oportunidades para as que vierem a seguir.

07
Mar21

O silêncio dos inocentes

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16 512 pessoas morreram com covid em Portugal. A maioria provavelmente morreu sem um abraço de despedida, nem sequer um olhar.


Esta semana assinalou-se um ano desde o primeiro caso conhecido de covid em Portugal.


Lembro-me do pânico que se sentia desde Fevereiro, a antecipação dos jornalistas pelo primeiro caso em Portugal. O horror que se vivia em Itália. Nunca esquecerei as imagens dos hospitais em Milão.


É difícil escrever com clareza sobre o que se passou há um ano porque há tanto luto, tanta perda, tanta tristeza. Mas hoje há também esperança: 1 milhão de pessoas vacinadas.


Por estes 16 512 inocentes que morreram sozinhos temos o dever cívico de ser responsáveis, respeitar o confinamento, unirmo-nos na esperança de um amanhã melhor e agradecer as pequenas coisas de cada dia.

03
Mar21

Kit de Sobrevivência XXII - Séneca

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Há uns dias saiu o documentário realizado por Kevin Macdonald "A Vida num Dia 2020", filmado por pessoas de todo o mundo, no dia 25 de Julho de 2020. Este filme é, de certa forma, a continuação do documentário "A vida num Dia 2010", filmado por algumas das mesmas pessoas.

 

A história acompanha o dia de várias pessoas em todas as partes do mundo, desde o amanhecer até à noite. Vemos todas as regiões que o leitor possa imaginar, desde a Sibéria ao Brasil, a Itália, à China e ouvimos, consequentemente, várias línguas e dialetos que nos mostram como o mundo é rico e diverso culturalmente.

 

Nas cenas iniciais, vemos o nascimento dos primeiros bebés de 25 de Julho de 2020, alguns em casa, outros em hospitais muito sofisticados, mas todas as mães acompanhadas. Mostra bem a universalidade da experiência humana, como nascemos e morremos sozinhos, mas, com sorte, de certa forma acompanhados.

 

Depois há uma montagem com as diferentes, mas semelhantes, rotinas matinais: lavar a cara, lavar os dentes, tomar o pequeno-almoço. Mas também um vídeo tocante de um homem no Reino Unido que perdeu tudo na pandemia, que refere: “está na hora de mudar de sítio, nós, os invisíveis, tornamo-nos demasiado visíveis a esta hora”. A pobreza também pode ser encontrada em todo o mundo.

 

Ao longo do filme, algumas imagens são enternecedoras, outras devastadoras, as experiências humanas são tão diversas e complexas ao longo do dia quanto a dimensão do nosso planeta.

 

Há muitas coisas que nos unem enquanto espécie: todos nascemos; todos morremos; todos temos necessidades fisiológicas; (quase) todos ficamos doentes em alguma altura das nossas vidas; todos choramos, todos rimos; todos precisamos de amar e ser amados. No fim, três coisas são universais, independentemente da sua forma: amor, família, esperança.

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