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O espaço das pequenas coisas

O espaço das pequenas coisas

27
Jun21

Santos da Casa não fazem milagres ou O dia mais longo do ano

Santos da Casa…não fazem milagres ou O dia mais

No dia mais longo do ano, que marca tradicionalmente o fim da Primavera, choveu e trovejou como se as estações se recusassem a dar lugar umas às outras e, de repente, estivéssemos presos no Inverno.

 

Ao mesmo tempo, os casos de covid continuam a aumentar a um ritmo dramático, o que impediu os arraiais, os balões e as sardinhas nos Santos Populares.

 

Apesar da célere vacinação, nada parece suficiente para fazer face a esta pandemia e a paciência começa a esgotar. Tal como o tempo se recusa a dar lugar ao Verão, o “bicho” parece infiltrar-se em muitas áreas da nossa vida: nas relações porque não podemos abraçar-nos, no trabalho porque nunca vemos o Outro, nos sonhos porque o futuro parece tão distante. E, no entanto, o tempo passa, as semanas transformaram-se em meses e cá estamos um ano e meio depois.

 

Creio que nestas alturas o melhor é desligar. O telefone, as notícias, as notificações de email, as obrigações e parar para respirar. Não sei quanto ao caro leitor, mas pessoalmente, gosto de passear à beira-mar, dar um mergulho, refrescar as ideias. Ainda que tudo se mantenha na mesma, eu torno-me diferente. A minha paciência retorna, a minha tolerância é reforçada e a minha compaixão é renovada.

 

Assim, este fim-de-semana, encontro-me off. Nunca totalmente porque continuo a ler e a escrever, mas isso será o tema de uma próxima crónica!

23
Jun21

Kit de Sobrevivência XXXVII - Expressão popular Portuguesa

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A pandemia alterou muitas coisas e, apesar d’a vida a acontecer, muitos eventos foram alterados, muitas reflexões despertaram mudanças. Numa das primeiras crónicas aqui, chamada “As pequenas coisas II”, escrevi sobre algumas tradições que me traziam conforto, mas não escrevi sobre “a bola”.

 

Quando era pequena, o meu Pai e o meu Avô levaram-me ao estádio (o antigo), para ver os grandes jogadores da época que hoje aparecem no programa “Conversas de Balneário” do Canal 11 (obviamente sugerido pelo meu Príncipe). Naquela altura, dava gosto ver futebol, a tática começava a assumir cada vez maior importância e a preparação física (e muito mais tarde, mental) começou a ganhar peso nas equipas.

 

No Euro 2016, Portugal foi campeão, como o leitor poderá saber. Na semana seguinte, o meu Príncipe viajou em trabalho a França e era tamanha alegria que os franceses, que até então faziam jus à expressão “à grande e à francesa”, andavam cabisbaixos. Foram momentos de grande alegria (para Ele). Já eu, recordei com alguma tristeza, esses dias em que ia ao Estádio com o meu Avô e tudo era um pouco improvisado, mas havia a garra de querer ganhar.

 

Esta equipa de Portugal, faz lembrar um pouco as equipas do Real Madrid: muitas vedetas, pouca equipa. Acredito verdadeiramente que, se a equipa conseguir (re)unir-se e encontrar o propósito comum, pode ser campeã novamente. Até lá, continuamos a torcer pela seleção portuguesa.

20
Jun21

10 coisas nos 30

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1.Skydiving. Como disse a minha amiga Anamor: “o que não fizeste nos 20 transita para os 30”. Et voilà!

2.Viajar. Continuar a viajar, se possível ir a sítios ainda mais desconfortáveis, estranhos e diferentes. Absorver a cultura, integrar as aprendizagens na minha vida.

3.Fazer desporto. Esta era uma óbvia! Além de yoga e pilates, gostava de aprender a correr. Como diz o meu príncipe: “é só um pé à frente do outro”, mas a mim parece um bocadinho mais difícil quando o meu coração palpita de tal maneira que parece que vou desmaiar.

4.Cuidar da minha saúde. Por muitas pessoas de quem tenha que cuidar, gostaria de continuar a cuidar de mim, da minha saúde física (ai as consultas!...) e mental (meditação, mindfulness, terapia, caminhadas, música).

5.Continuar curiosa. Sejam receitas novas, línguas, ou simplesmente conhecer novos artistas, participar em workshops, ler livros desconfortáveis, continuar a aprender.

6.Levar a vida com maior leveza. Depois dos últimos 16 meses tudo parece relativo, não é? Por isso, porque não rir mais, arriscar mais, ser mais divertida?

7.Escrever. Por necessidade e para me manter ligada a esta comunidade maravilhosa.

8.Spa Sunday. Não sei quão realística esta será, mas gostava de continuar os nossos Spa Sunday, pelo menos fazer uma mascarazinha e lavar o cabelo? Mães por favor manifestem-se!

9.Dar uns bons mergulhos. Bem sei que o nosso “mar” é um pouco gelado, mas gostava de continuar a ter a coragem de mergulhar com coragem e convicção.

10.Partilhar a beleza das pequenas coisas. Continuar a parar para ouvir os passarinhos, ver a forma das nuvens, abraçar os meus, a alegria das primeiras cerejas. Partilhar estes momentos com os meus.

 

Daqui a 10 anos, se eu e o leitor ainda estivermos aqui, vamos dar umas boas gargalhadas da ingenuidade dos 30?

16
Jun21

Kit de Sobrevivência XXXVI - Daisaku Ikeda

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Nas últimas noites tenho tido dificuldade em dormir, não só pelo calor mas pela proximidade de um aniversário marcante na minha vida.

 

A minha Mãe sempre me disse que quando fez 30 anos a sua vida mudou. Nos meses que antecederam sentiu uma mudança dentro dela e sinto que o mesmo aconteceu comigo. Claro que uma ditadura e uma pandemia são momentos totalmente distintos mas agora consigo imaginar o que seria viver com medo, ter alguma liberdade restringida (ainda que a maior parte da nossa liberdade tenha estado intacta, nomeadamente a capacidade de continuar a escrever livremente o que penso e a ler o que me apetece).

 

Nestas noites, fico acordada a pensar na visão ingénua que tinha com 20 anos. Nessa altura, imaginava que teria uma carreira extraordinária no mundo académico e clínico, que manteria sempre o meu ativismo, viajaria pelo mundo inteiro e que aos 30 estaria casada e com um filho a caminho.

 

A vida deu muitas voltas e percebi neste último ano que os meus sonhos mudaram. Já não preciso da carreira genial, continuo o meu ativismo em diversas áreas através de outros meios – aqui e noutros projetos – e partilho um amor muito além dos contos de fadas. E mais importante, continuo a sonhar, a crescer e a desejar ser útil. Este é o meu derradeiro sonho e propósito: continuar a ser útil.

 

Então porque continuo a acordar às quatro e cinco da manhã? Porque a vida continuará a dar voltas enquanto continuo a fazer os meus planos e essa imprevisibilidade é tanto assustadora quanto entusiasmante. Já cheguei tão longe, muito mais do que poderia imaginar, suportada (literalmente) pela minha tribo: a minha família, os meus amigos e o caro leitor. Muito obrigada.

13
Jun21

10 coisas antes dos 30

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  1. Viajar para uma cultura diferente. Pode parecer óbvio, mas quando estamos noutro país com uma cultura diferente da nossa, o nosso mundo interior torna-se maior e mais diverso. Fiz duas destas viagens. Na primeira, à Turquia, senti-me sem chão perante a mistura de cheiros, cores, sons em todo o lado. Impressionou-me particularmente a grandiosidade das casas-cave na Capadócia.

 

  1. Dar o salto. Metafórica e (por vezes) literalmente é preciso dar o salto e os 20s são a altura ideal para o fazer. Tornar-se verdadeiramente autónomo. Também dei alguns saltos, um salto literal para o oceano Atlântico nos Açores, outro quando fui viver para a Alemanha. O importante é experimentar sair da nossa zona de conforto e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade das nossas ações.

 

  1. Ganhar dinheiro. Parece óbvio, mas a autonomia depende, em grande medida, da capacidade de trabalhar e ganhar dinheiro. É incomparável a sensação de sermos pagos pelo nosso suor e lágrimas, de ver os resultados (mais) imediatos do nosso trabalho.

 

  1. Continuar a aprender. Nunca se deixa de aprender, mas até aos 30 é a altura perfeita para estudar várias coisas (existem inúmeros cursos online gratuitos), ter várias experiências (viajar, ouvir música, ir a concertos ou peças de teatro) e conversar com o maior número de pessoas e escutar a sua sabedoria.

 

  1. Ser solidário. Não há maior sensação de propósito que fazer voluntariado. Durante toda a minha vida estive envolvida em várias organizações, vi-as crescer e elas viram-me crescer também. O que se recebe é muito mais do que o que damos, é um sentimento de pertença e de contribuição minúscula para um mundo melhor.

 

  1. Falhar, falhar, falhar. Estima-se que a maturação (quase total) do nosso cérebro ocorra aos 25 anos, pelo que é natural cometer muitos erros. Simplesmente não temos a capacidade intelectual, emocional nem a experiência de vida para compreender o mundo como um todo. Sentimo-nos (quase) imortais no auge da nossa juventude e, por isso, é sempre uma surpresa quando inevitavelmente falhamos em alguma coisa. Agora que estou do outro lado, vejo o segredo para ser feliz: tornar-se um expert na arte de “cair e levantar”.

 

  1. Chorar as perdas. Até aos 30 anos a maior parte de nós perde pessoas de quem gosta, oportunidades únicas, ideias, juventude. É preciso fazer o luto das perdas, partilhá-las com os nossos mais queridos, dar tempo para sarar as feridas.

 

  1. Festejar as vitórias. Da mesma forma, é preciso aprender a celebrar as grandes vitórias: tirar a carta, fazer um curso ou conseguir um trabalho, fazer aquela viagem, amar alguém especial, casar ou ter filhos, ver os nossos amigos crescer, descobrir novas coisas sobre nós próprios. É preciso festejar os grandes momentos da vida.

 

  1. Celebrar as pequenas coisas. Ser feliz é aprender a celebrar e sentir gratidão por todas as pequenas coisas que, no dia-a-dia, nos elevam: uma noite bem dormida (e já agora uma boa almofada e bons lençóis!), exercício físico (para mim pilates, yoga ou Tai Chi), um bom passeio (com o meu Príncipe ou um bom podcast), a Natureza (mar e campo), boas comidas (e bebidas!), conversas longas, partilhar interesses, tornar-se íntimo de alguém, encontrar uma nova paixão.

 

  1. Ouvir a nossa própria voz. A maior parte de nós cresceu com expetativas, sejam da família e amigos, mas também de nós próprios. Os 20s são uma ótima idade para diminuir o volume do exterior e sintonizar com o que realmente desejamos. Aprender a ouvir a nossa versão da verdade é fundamental para viver em paz, mesmo que o nosso mundo interno pareça muito diferente do mundo externo. Não faz mal, ninguém pode mudar o mundo num dia. Como uma vez uma pessoa sábia me disse “comparamos o palco dos outros com os nossos bastidores”. Ninguém sabe como os outros realmente se sentem, por isso mais vale focar no que sentimos e na nossa atitude perante o que nos vai acontecendo e o que fazemos acontecer.

 

Dica extra: quebrar as regras de vez em quando!

09
Jun21

Kit de Sobrevivência XXXV - Jane Austen

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Como o leitor poderá saber, estou a ouvir a biografia de Barack Obama “A Promised Land”, lida pelo próprio.


É maravilhoso ouvir a voz do antigo Presidente relatar os eventos que levaram à sua candidatura e consequente Presidência dos EUA. O seu tom de voz calmo, a sua maneira de realmente escutar as questões, ponderar bem sobre a informação e responder de uma forma clara e objetiva são algumas das características que o tornam tão apelativo.


Além de parecer um homem bom, independentemente do seu nível de cansaço, Barack Obama conseguiu muito na sua Presidência, muito mais do que alguns de nós nos lembraríamos. Muito do seu legado foi construído nos bastidores da política, promovendo diálogos difíceis, nunca fugindo a questões quer do seu partido, quer dos eleitores e do Mundo.


Para mim, o que fica não é só o que Barack Obama fez, mas como o fez. O tom conciliador que definiu a sua Presidência, o olhar atento ao Mundo (mesmo em questões tão sensíveis como o genocídio em Myanmar). Em tudo, o Presidente agiu como um verdadeiro líder mundial, procurando consensos, tomando posições rígidas quando foi preciso, mas no geral sendo a voz da Paz. É por isso que, para mim, a atribuição do Nobel da Paz a Barack Obama nem era discutível. O período da sua Presidência foi, simultaneamente, o período de maior paz mundial e é tudo graças ao seu tom.


Nos últimos anos, frequentemente vem-me à memória a sua calma e delicadeza que só são, para mim, comparáveis às de Papa Francisco.

06
Jun21

Um dia (quase) normal

 

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Neste fim-de-semana, pela primeira vez em 15 meses tivemos um dia (quase) normal. Tirando as máscaras de Carnaval, por umas horas tudo pareceu normal outra vez.

 

Acordámos cedo, como sempre, tomámos o mesmo pequeno-almoço de sempre: pão de abóbora e noz com mel e queijo para mim, bolachinha maria com manteiga de amendoim para o Príncipe e dois grandes Cappuccinos. Conversámos sobre o Sol e os passarinhos lá fora e sobre uma série que estamos a ver. Depois, Ele sugeriu um brunch no nosso sítio favorito.

 

Como era de manhã cedo, decidimos calçar as sapatilhas de corrida e ir a pé. São uns 5km para cada lado, cheios de curvas, sobe e desce, mas uma vista incrível. Pus um vestido de Verão, o Príncipe vestiu a sua t-shirt favorita e lá fomos.

 

Parámos várias vezes para admirar a beleza dos sítios por onde passámos, sentimos o Sol na nossa face e, por momentos, tudo parecia normal outra vez. Contei as mesmas histórias, “a minha Mãe andou aqui na Escola Primária”, “aqui era onde o meu Avô dizia «cautela que vem aí um carro!»”.

 

Chegámos ao nosso restaurante preferido, onde nos perguntaram onde preferíamos sentar. Respondemos ao mesmo tempo: “cá fora!”. Sentámos, tomámos um sumo de laranja e um de frutos vermelhos. Ele pediu uns ovos benedict, eu uma sanduíche vegetariana. Conversámos sobre a normalidade de tudo aquilo, sobre o último ano de pandemia, sobre as descobertas no mundo astronómico.

 

Visitámos uma feira de rua, vimos discos, livros, roupa, jóias, compotas. Sentimos o Sol mais uma vez. Comprámos água fresca num dos cafezinhos. Comemos um pastel de nata, passeámos sempre de mãos dadas.

 

Que bom voltar à normalidade ainda que só por um dia!

02
Jun21

Kit de Sobrevivência XXXIV - Zadie Smith

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No tempo que passei em Inglaterra, uma amiga que lá vive há cinco anos, resumiu a sua experiência em Inglaterra da seguinte forma: “os ingleses são todos cheios de regras, nem sequer me olham nos olhos durante a semana. À sexta-feira vão para os bares embebedar-se e já são os meus melhores amigos.”

 

Claro que é uma generalização absoluta de um grupo restrito e algumas pessoas foram muito amáveis durante o tempo que passei lá. Guardo memórias maravilhosas do campo, do rio, dos animais, da Natureza inglesa do burburinho das cidades, da oferta cultural.

 

Quando era mais nova, no Algarve, porém, a história era diferente. Frequentemente vi o cenário descrito pela minha amiga, o que sempre me incomodou. Refleti melhor sobre o povo inglês e percebi que é, como provavelmente muitos países, uma nação de contrastes: o campo e a cidade, a riqueza do centro de Londres e bairros nos subúrbios, a nobreza e a imigração. Sente-se particularmente em Londres, as pessoas tensas, sempre atarefadas, contrastantes com o laissez-faire dos dias de Verão.

 

Quando era pequena, por vezes, o meu Pai levava-me ao estádio de futebol. Quando o novo estádio estava a ser construído lembro-me de ouvir o meu Pai debater com os amigos: “não vai haver redes para segurar adeptos! Vai ser só invasões de campo!” dizia um amigo do meu Pai; “não pá, vai ser como os ingleses, que quando tiveram condições melhores, sem barreiras, ajustaram o comportamento. Isso dos hooligans está a desaparecer…” respondia o meu Pai.

 

A verdade é que as imagens divulgadas infelizmente mostram o pior dos adeptos ingleses: sob todas aquelas regras, existe uma sociedade profundamente dividida, racista, xenófoba, como contam Zadie Smith nos seus livros e os Duques de Sussex nas várias  entrevistas  que concederam.

 

O aspeto talvez mais preocupante é o tabu da saúde mental. Numa sociedade tão reprimida, é difícil tratar a saúde como um todo, apesar de existirem vários programas interessantes com foco na intervenção precoce e no que chamam de “mental fitness”. Mas esta raiva demonstrada pelos adeptos é um sintoma de uma comunidade que precisa de ajuda.  

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