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O espaço das pequenas coisas

O espaço das pequenas coisas

25
Jul21

Verão azul

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Para mim, é o mar. 

 

Para mim, é o mar. No Inverno as suas ondas gigantes, cobertas de uma espuma devoradora de homens, desafiadoras do mais íntimo de nós. O mar verde denuncia o frio das noites horrendas junto ao mar, o cheiro a alga podre, o vento a soprar, quem sabe o Adamastor a espreitar por entre as ondas, a espuma, o verde mar.

 

Para mim, é o mar. No Verão o mar reflete os raios de sol, o seu azul traz esperança num novo dia, o sal na pele é prova de que um dia fomos peixe com guerlas e barbatanas e cauda. As suas ondas, agora fortes e convidativas, embalam-nos como o colo da Mãe. Vai e vem...vai em vem...vai e vem...

 

Para mim, é o mar. As pranchas sobre as ondas, que nos levam mais longe, quase até ao infinito, numa imortalidade momentânea. Mergulhar na água fria, às vezes gelada, refrescar as ideias, pensar novo, pensar diferente, sonhar com o horizonte.

 

Para mim, sempre foi e sempre será o mar.

18
Jul21

Diz-me com quem andas...dir-te-ei quem és

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No curso que estou a fazer, esta semana tínhamos de escrever sobre as nossas influências literárias. É difícil sumarizar as minhas influências porque correspondem a períodos específicos da minha vida. O primeiro livro que teve um grande impacto na minha percepção do mundo foi o livro infantil “Dantes havia gigantes” de Martin Waddel e Penny Dale. A história acompanha a vida de uma mulher, desde a infância até ter um filho e tocou-me particularmente porque, mesmo com sete anos, percebi que a vida é um ciclo imperfeito.

 

Mais tarde, aos dez anos, li “O diário de Anne Frank”, que despertou a minha consciência social. Na mesma altura, li também “Olá! Está aí alguém?” de Jostein Gaarder, um livro sobre a beleza e complexidade da relação entre irmãos. Li muitos livros da Colecção “Estrela do Mar”, todos editados com cuidado extraordinário.

 

Devia ter quinze ou dezasseis anos quando li “A insustentável leveza do ser” de Milan Kundera, que passou a ser um dos meus autores preferidos. É difícil explicar o que mudou em mim, mas creio que terá sido também a forma como escrevia. Por volta da mesma altura, li “Cem anos de solidão” de Gabriel Garcia Marquez, num tema tão próximo da minha escrita, com histórias e lendas das famílias que se propagam ao longo das gerações.

 

Num Verão li de rajada “Para onde vão os guarda-chuvas” de Afonso Cruz, um dos melhores livros da minha vida. Desde uma viagem à Turquia, fiquei fascinada com cores e aromas diferentes de onde vivo, por isso quando li esta obra nunca mais parei de explorar o mundo através de livros e viagens.

 

Recentemente, tenho lido autoras feministas, desde Virginia Wolf, a Chimamanda Ngozi Adichie, a Zadie Smith, entre outras. Para uma gargalhada pensada, gosto de ler Ricardo Araújo Pereira e David Sedaris.

11
Jul21

Have it all

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Nos anos 90, lembro-me distintamente, havia uma nostalgia do tempo do "tudo à grande e à francesa". Como o leitor poderá saber, a expressão deriva do tempo do Rei Francês Luís XIV, chamado "Rei Sol", pelo seu desejo de ordem, mas mais tarde pela sua adoração a tudo o que reluzia.

 

Como dizia, nos anos 90, a Economia mundial prosperava. Com o fim da Guerra Fria e a queda do muro de Berlim, o progresso parecia imparável e a palavra de ordem era "crescer". O capitalismo venceu o comunismo e espalhava-se a um ritmo exponencial. "Não tem dinheiro? Nós emprestamos!", "Ainda não tem o novo carro? Nós emprestamos!", "Como assim não tem piscina? Nós emprestamos!". Era o tempo do consumo pelo consumo, talvez pela privação do consumo de bens dos anos anteriores. A verdade é que ligavam para casa das pessoas incessantemente a incentivar o consumo. Naquele tempo, parecia ser possível ter tudo. 

 

Mesmo com as crises políticas, o capitalismo foi crescendo cada vez mais e foi nesse tempo que cresci também. Colégios privados, walkmans, discmans, consolas, computadores, bicicletas, tudo parecia possível desde que se trabalhasse muito, desde que se tivesse boas notas e entrasse para as escolas certas. 

 

Nos início dos anos 2000, houve uma pequena recessão em Portugal que coincidiu com uma crise política, mas nem isso travava o consumo desenfreado, as infinitas possibilidades. Se estudar na escola certa, uma boa vida estará à sua espera. Escolha o curso certo, tenha os amigos certos, comporte-se da maneira certa (nunca cotovelos em cima da mesa) e o céu é o limite. 

 

Até que, em 2008 uma crise surge uma pedra no caminho do capitalismo. Alguns bancos caíram, outros foram salvos com negócios duvidosos, muitas empresas faliram e milhões de pessoas ficaram na miséria. Seria de esperar que este momento alterasse a nossa mente comunitária, mas ao fim de alguns anos, o consumismo voltou. "O que faz em casa? Conheça o mundo, nós emprestamos!", "Quer ir à praia? Vá às Seychelles, nós emprestamos". Nem com a pandemia, quando o mundo parou em 2020, o consumismo parou.

 

O aspeto talvez mais problemático deste imaginário comum é a possibilidade de ter tudo. Não é possível, ninguém pode ter tudo, senão o que resta para o outro? 

 

É necessário mudar. A mudança é sempre assustadora, implica muito esforço, energia, persistência. Não é só a ameaça ao nosso planeta, é a ameaça à nossa sobrevivência enquanto espécie. Não é uma coincidência que nos países nórdicos, onde a sociedade é tendencialmente mais evoluída, a taxa de suicídio é das mais elevadas.

 

Pela nossa condição de seres gregários, a felicidade individual depende inerentemente da felicidade comunitária. A grande falácia dos anos 90 e que persiste até hoje, é achar que os bens materiais podem preencher o vazio de uma sociedade desigual. 

06
Jul21

O Adeus ao Euro

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Foto: José Manuel Vidal, Getty/Pool

Esta crónica vem com uma semana de atraso para digerir o grande melão com que muitos portugueses ficaram com a eliminação da seleção portuguesa do Euro 2020. Não sou expert em futebol (nem em nada concreto), mas o que observei foi um conjunto de jogadores desesperadamente a tentar tornar-se numa equipa.

 

Quando era pequena, lembro-me de ver o Real Madrid com a sua equipa de super-estrelas: Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, etc. Em todos os jogos, inevitavelmente, o meu Pai comentava com ironia: “Olha para isto, são super-estrelas mas parecem uns meninos. Não há quem ponha mão nisto!”. Por essa razão, o meu Pai sempre foi adepto (honorário) do Barcelona.

 

Ao ver Portugal neste Euro 2020, em 2021, lembrei-me dessa equipa do Real Madrid. Nunca vi a maior parte dos jogadores fora da seleção, mas o meu Príncipe diz-me que são muito bons, talvez a melhor seleção que Portugal já teve. E, no entanto, não foi suficiente para vencer esse gigante que é a seleção belga.

 

Li muitas crónicas sobre o jogo, mas a minha observação é necessariamente sobre a equipa. Não está lá. Aquele sentimento de pertença, aquela vontade de ganhar que se sobrepõe a individualidades, super-estrelas, lesões, simplesmente não existe.

 

Vi na seleção lusitana um conjunto de jogadores a querer chegar à baliza e, do lado belga, uma equipa a querer ganhar o Euro 2020. O último jogo foi “o mal menor”, porque assim tinha sido contra a equipa da Hungria, cujo resultado é extremamente enganador, contra a seleção da Alemanha numa prestação embaraçosa e contra a seleção gaulesa num esforço brutal para Portugal.

 

Talvez Fernando Santos se tenha deixado intimidar pelos rankings, o que é um pouco incompreensível para um Engenheiro com tanta experiência. Este ranking, definido pela FIFA, coloca uma equipa que nunca, repito, nunca!, venceu nenhuma competição em primeiro lugar.

 

Muitas vezes, nesses “programas da bola”, ouve-se dizer que o futebol é um jogo de interesses e não podia estar mais de acordo. Uma seleção que se deixa eliminar desta forma não merece, de facto, ganhar o Euro 2020.

04
Jul21

Kit de Sobrevivência XXXVIII - António Coimbra de Matos

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António Coimbra de Matos, psiquiatra e psicanalista português, Pai da Psicanálise e Pensador português. Deixou-nos aos 92 anos, no 1º dia de Julho.

 

Apesar de admirar o trabalho do Dr. Coimbra de Matos, só uma vez tive coragem de o abordar num Congresso há muitos anos. O seu sentido de humor mordaz e certeiro sempre me fascinou e intimidou, mas o desejo de escutar a sua sabedoria era maior.

 

O Pai da Psicanálise Portuguesa tinha uma maneira muito própria de tornar ideias complexas num conceito mais simples, com um fio condutor claro e compreensível até para leigos. Além disso, e ao contrário da maior parte dos psicanalistas, era um homem moderno, olhava para a Psicanálise como uma poderosa ferramenta para pensar o futuro e não só as tradicionais díades Mãe-bebé, Pai-bebé e fazia-o sempre com humor.

 

Será lembrado pelo seu legado e por todos aqueles a quem a sua sabedoria tocou.

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