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O espaço das pequenas coisas

O espaço das pequenas coisas

01
Ago21

E depois do Adeus

otelocarvalhodesaraiva.jpg

Fotografia: Rui Ochôa para Expresso

Há uma semana deixou-nos Otelo Saraiva de Carvalho e, com ele, mais uma peça do ideal da revolução.

 

Houve quem escrevesse que o cérebro por detrás do 25 de Abril não tinha ideais ou que estes mudavam consoante o vento, houve até quem tenha achado que seria apropriado, no próprio dia, dar voz aos opositores do Capitão de Abril. Por fim, encontrei algum consolo nas palavras de Manuel Alegre na crónica do Público a pedir o dia de luto nacional. A morte de Otelo foi tão significativa que mereceu destaque internacional.

 

É difícil compreender a contestação gerada, inflamada pelo próprio Presidente da República que afirmou: “é ainda cedo para a História o apreciar com a devida distância”. Sem Otelo, não havia 25 de Abril, não havia liberdade, não havia democracia. A revolução portuguesa é incontestavelmente das transições mais pacíficas do mundo, apenas com 4 mortes causadas pela própria PIDE. Uma revolução que foi levada a cabo por militares contra o seu comandante supremo.

 

Ao contrário de outros regimes, em Portugal, nunca houve julgamento de nenhum dos altos representantes do regime ditatorial: Salazar morreu, Marcello Caetano foi exilado no Brasil, os ministros perdoados (o que levou a que hoje tenhamos um Presidente da República filho do regime), os PIDES absolvidos e fez-se tábua rasa, um novo dia. As dezenas ou centenas de famílias dos torturados, desparecidos, mortos nunca viram julgamento, quanto mais justiça. Parece-me natural, e ainda assim condenável, que houve quem quisesse fazer justiça pelas próprias mãos. Assim nasceram as FP-25 pelas quais Otelo Saraiva de Carvalho foi julgado e cumpriu cinco anos de prisão.

 

No fim, a questão que se impõe é: com o desaparecimento de Otelo, o que acontece aos valores da revolução? Como o jornalista António Guerreiro explicou na sua crónica, com o desaparecimento dos “capitães de abril”, desaparecem também os ideais do 25 de abril: liberdade, democracia, igualdade. A sociedade ocidental é, hoje, muito mais homogénea e a violação das liberdades fundamentais é subliminar, através de Big Data, nepotismo e consumismo.  

 

Vídeo: António Zambujo para Rádio Comercial

 

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