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O espaço das pequenas coisas

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02
Set20

Onde estavas no covid?

onde estavas no covid.jpg

Há seis meses foi confirmado o primeiro caso de covid em Portugal. 2 de março de 2020. É um daqueles momentos “onde estavas no 25 de abril?”.

Nos últimos meses, como toda a gente, tenho sentido coisas diferentes em fases diferentes. Em fevereiro, lembro-me de me sentir paralisada com o medo de que o covid pudesse chegar a Portugal da forma devastadora que víamos nas imagens da televisão e das redes sociais. Paralisada, porque parecia que o Sol nunca mais ia brilhar em Itália e o cheiro a morte entrava-se nas ruas, nos campos e aquelas imagens horríveis das pessoas a morrer sozinhas, lentamente, dolorosamente nunca mais poderiam ser esquecidas. Mas eis que o Verão chegou e aqui estamos (felizmente!).

Em março e abril, o confinamento obrigou-nos a todos a olhar para dentro, para as nossas casas, para as nossas famílias, para dentro de nós. A saudade da minha família foi (quase) insuportável, os aniversários, a Páscoa (ver crónica “As Pequenas Coisas II”), tudo por um objetivo muito claro na mente coletiva da maioria dos portugueses: não repetir aquelas imagens horríveis.

Às vezes, durante os nossos passeios, parece-me estranho (ver crónica anterior Sunny Delight), observar adolescentes a praticar desporto sem máscara ou quando vemos um filme e as pessoas nem sequer mantêm distância de segurança.

Frequentemente, se estou muito envolvida nos meus passos, lembro-me que há poucos meses podia entrar num supermercado tranquilamente, cheirar a fruta, escolher os legumes, tocar em tudo o que quisesse, sem medo de vírus. Podia abraçar a minha família, sem medo de os contagiar ou que me contagiassem e eu contagiasse outros. Podia ir ao ginásio, à piscina, jantar fora, ir ao cinema, ao teatro. Podia ir a consultas, ao hospital, à fisioterapia ou ao dentista sem medo de contagiar ou ser contagiada.

Acima de tudo, não vivia com medo. Na meditação aprendemos a viver no momento e esta tem sido a minha estratégia para enfrentar o medo, dia a dia. Quando comecei este blog, tinha tanto medo que alguém lesse o que escrevia que durante meses não disse a ninguém, nem à minha família. Nas palavras de Lao-Tsé: “uma longa viagem começa com um único passo”. Talvez eu precisasse de entrar neste estado de pânico para dar o primeiro passo, sentar-me em frente ao computador e “escrever em voz alta”.

Obrigada por ampararem esta minha tentativa com palavras de encorajamento, apoio e esperança.

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