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O espaço das pequenas coisas

O espaço das pequenas coisas

14
Fev21

Amor

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Quando pensamos em São Valentim, pensamos no amor das comédias românticas de Hollywood ou nos trágicos romances da literatura francesa do século XVIII. Porém, o amor surge nos momentos mais inesperados e frequentemente nem é um amor romântico.


Há umas semanas submeti-me a uma cirurgia programada ao ombro. Antes de entrar no hospital, tinha muito medo do que iria encontrar: uma dor aguda quase insuportável, desconforto, velhotas tagarelas que queriam ver a novela, profissionais de saúde em burnout.


Aqui, n’O espaço das pequenas coisas, também há espaço para me retratar, pois o que recebi durante os dias em que estive internada foi uma lição de humildade, respeito e amor.


No primeiro dia, fiquei num quarto amplo, renovado, com uma cama confortável para o meu ombro, um armário só para mim. Comigo esteve sempre uma senhora que bem podia ser sósia da minha Avó. Por isso, pelo menos durante esses dias, pude reencontrar-me com a minha Avó, relembrar os seus gestos, o quanto gostava de doces, a sua amabilidade sublime.


No dia da cirurgia, a médica anestesista ficou comigo à entrada do bloco operatório, explicando-me o processo, distraindo-me do que se passava, contando-me que tinha uma “máquina de ler sonhos”, adormecendo-me gentilmente. Como disse a minha querida sogra, embarquei numa viagem: “primeiro o Alentejo, depois o Algarve e quando deres conta já estás na caminha”.


E assim foi. Nunca tive dores agudas, os médicos, enfermeiros, assistentes operacionais, senhoras da limpeza, todos falavam com calma e amor, como se estivéssemos numa bolha sem covid.


Naquela nossa bolha, o Enfermeiro perguntou-me sobre o meu blog enquanto administrava a minha medicação, a Enfermeira comentava o meu cabelo enquanto verificava as minhas tensões, o Enfermeiro acenava-me durante a noite para que não me assustasse com as rondas.


Na nossa bolha, os doentes tornaram-se amigos, as doenças apenas parte de uma história maior e com o apoio uns dos outros fomos saindo da unidade: “Saio amanhã!”, “Eu só na Quinta!”, “Bem melhor do que eu, que só vou na Sexta!”.


Comentávamos as dietas uns dos outros, uma vez Patrícia disse-me: “não sou uma Santa mas também não sei que mal fizeste para comer isso!”, referindo-se à minha dieta vegetariana. Rimo-nos pois os meus nuggets tinham melhor aspeto do que a sua farinha de pau.


Todas as manhãs dizíamos “bom dia” com o máximo de alegria para animar toda a gente e todas as noites desejávamos “bons sonhos” depois do chá.


Havia casos de tudo, recuperações de sequelas de covid, problemas gastrointestinais, dificuldades respiratórias, infeções no ouvido. Alguns estavam cansados das suas longas batalhas, outros ainda tinham força para a longa recuperação. Em todo o caso, unimo-nos o mais que as normas covid permitiram para que ninguém sentisse que estava só.


Faltam-me palavras para expressar a minha gratidão a todos os profissionais de saúde daquela unidade hospitalar que foram incansáveis no seu cuidado e delicadeza ao tratar de mim. Pude ver de perto a dedicação e cuidado que dedicam a todos os pacientes e uns aos outros, porque afinal são uma equipa.


Neste ano, o São Valentim tem, para mim, outro significado. Significa o amor maior, o amor que cuida, que não julga, que apoia, que não desiste, que está sempre lá. O amor que só existe na vida real.

03
Fev21

Kit de Sobrevivência XVIII - Paulo Coelho

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Ode a Ti

 

"Um texto antigo diz que cada pessoa, durante a sua existência, pode ter duas atitudes: construir ou plantar. Os construtores podem demorar anos nas suas tarefas, mas um dia terminam aquilo que começaram a fazer. Então param, ficam limitados pelas suas próprias paredes. A vida perde o sentido quando a construção acaba.

Mas existem os que plantam. Estes, algumas vezes, sofrem com as tempestades, as estações, e raramente descansam. Mas ao contrário de um edifício, o jardim nunca pára de crescer. E, ao mesmo tempo permite que, para ele, a vida seja uma grande aventura.

Os jardineiros reconhecer-se-ão entre si – porque sabem que na história de cada planta está o crescimento de toda a Terra."

Paulo Coelho in “Brida”

 

Meu amor, que o nosso jardim continue a florescer durante muitos mais anos. Feliz Aniversário.

16
Dez20

Kit de Sobrevivência XIII - Gabriel García Márquez

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O amor nos tempos de covid

 

Quando era adolescente, a Mãe frequentemente murmurava “todas as discussões começam por causa de um sabonete”. Na altura, não reconhecia como a Mãe era cool, com o seu pilates tão à frente do seu tempo, com as jóias da sua Avó, com as suas mãos de Mãe sempre prontas a sossegar os meus medos, mesmo quando a minha adolescência a rejeitava.

 

Aos 22 anos, finalmente, decidi ler “O amor nos tempos de cólera” de Gabriel Garcia Márquez e percebi porque “todas as discussões começam por causa de um sabonete”, pela mesquinhez, pelas pequenas coisas que reabrem velhas feridas. Naquele momento decidi que se algum dia tivesse a sorte de encontrar um amor tão grande como Florentino e Fermina ou Jim e Pam (versão moderna da série “The Office”), lutaria por esse amor com toda a minha energia até a completa exaustão.

 

Felizmente, alguns anos mais tarde, tive a sorte de encontrar um Príncipe Encantado. Desde o início soube que a nossa história seria daquelas dos filmes, mas quem podia imaginar tudo o que passámos?

 

Depois o covid obrigou-nos a mudanças radicais. De repente, tivemos que vir para casa, trabalhar a partir de casa, viver 24/7, cozinhar juntos, planear as refeições, compras e limpeza. Pela primeira vez, tivemos que nos olhar sem a correria do dia-a-dia, sem o ruído do trabalho, sem artefactos, observar o verdadeiro estado da nossa relação e decidir como viver este tempo.

 

Felizmente, temos o mesmo sentido de humor e conseguimos criar um plano, tivemos o apoio da nossa família e amigos, o amor mútuo. Durante estes meses só nos abraçamos mutuamente, o que nas nossas famílias alargadas é muito estranho. Começamos a jogar damas, xadrez, sobe e desce, glória e todo o tipo de jogos de tabuleiro e inevitavelmente o meu Príncipe ganha (tenho de estar mais atenta às minhas damas!).

 

Ultimamente temos feito da sexta-feira uma “date night” surpresa, cada um organiza à vez. O mais importante é nunca desistir. Quando se encontra um obstáculo, é importante manter uma visão comum, nem que demore 53 anos até atingi-la. O amor vale sempre a pena.

02
Ago20

Para o meu amor

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Que o meu amor seja
Fogueira quente no inverno
E brisa refrescante no Verão
Folhas secas no Outono
Andorinha na Primavera.

Que o meu amor seja
Bacalhau na tua boca
Ou melão na tua boca
Ou todas os frutos que amas
E as comidas que devoras num segundo.

Que o meu amor seja
Uma página dos livros que te ofereço
Para durar uma eternidade
Para existir devagar
Para percorrer a tua mente
Para vaguear no teu coração.

Que o meu amor seja
Um pedaço de arco-íris
Que atravessa a tua íris
E percorre todo o teu olho
E vai no teu nervo óptico
Entrando pelo teu cérebro
Conhecendo os teus sonhos
E por lá fica a admirá-los.

Que o meu amor seja
Sempre a tua casa
O teu porto de abrigo
O teu conforto
O teu colo
Teu lar.

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