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O espaço das pequenas coisas

O espaço das pequenas coisas

17
Mar21

Kit de Sobrevivência XXIV - Schopenhauer

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Há um ano perdemos coletivamente a primeira pessoa para a covid-19. Há um ano entrávamos em confinamento.


Tenho passado muito tempo só. Não é bem só, é comigo mesma que é muito diferente. Como já escrevi em várias crónicas, esta pandemia fez-me questionar a vida que levava, os hábitos que tinha, a forma como investia o meu tempo.


Não foi logo nos primeiros dias, talvez só duas semanas depois do início do confinamento é que senti um desconforto, como uma cobra rastejante no Verão.


A princípio não liguei, procurava desenfreadamente novas formas de adormecer a dor que via em todo o lado, o medo que sentia.


Mas no início de Abril, era inegável a necessidade de parar, refletir, passar tempo comigo própria. Olhar bem no espelho, (re)conhecer-me, ver o que gostava, observar o que não gostava e decidir o que fazer.


A primeira coisa que fiz foi estabelecer uma rotina que me impedisse de cair na espiral do esquecimento, no poço das redes sociais, nas séries e filmes, nos livros e imaginação.


Depois percebi que era fundamental apanhar sol e todas as manhãs vestia um top de ginástica e ali mesmo na varanda do nosso apartamento, com vizinhos e tudo, lia durante um bocado ao sol.


O resto veio por arrasto: yoga ou alongamentos, pilates ou caminhadas, o importante era mover-me.


Comecei a escrever e assim nasceu O Espaço das Pequenas Coisas. As crónicas seguiram-se umas às outras e as ideias não paravam. Quem diria que tenho tanto para dizer?


Ultimamente a inquietação tem sondado as minhas noites como aquela cobra no Verão. Mas desta vez sinto que temos razões para ter esperança.

14
Mar21

It must be very nice to be you

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Esta semana assisti a mais um brilhante e comovente filme de Sofia Coppola “On the rocks”, no seu reencontro com Bill Murray e a brilhante performance de Rashida Jones.

 

Os filmes de Coppola passam, na maioria das vezes, ao lado das grandes cerimónias e ainda bem, assim ficam num cantinho do mundo para descobrir num dia chuvoso ou numa crise de identidade.

 

O filme conta a história de Laura, uma mãe e escritora com "bloqueio de escritor", que desconfia que o marido a anda a trair com uma colega de trabalho da sua nova startup. Ao contar a sua teoria ao Pai, os dois embarcam numa viagem pela Nova Iorque dos anos 70 e 80 com os icónicos Carlyle Hotel e 21 Club, onde Felix parece conhecer e seduzir toda a gente.

 

Numa cena fulcral do filme Laura desabafa: “E se tudo o que descobrirmos for que o Dean está ocupado e eu estou numa rotina?”.

 

É um verdadeiro desafio para as famílias os diferentes ritmos entre homens e mulheres, a diversidade de tarefas subtis das mulheres e a singularidade e notoriedade do trabalho da maioria dos homens. A desigualdade de género no trabalho é real mas vai além disso, existe claramente um desequilíbrio no reconhecimento do trabalho pago e não-pago, como este que o leitor, se chegou até aqui está a ler.

 

Penso que o filme capta muito bem o sentimento de Laura não se sentir interessante o suficiente, ao ponto de embarcar numa aventura com o Pai enternecedor mas inconsistente no seu amor e presença. As loucuras que fazemos por amor.

10
Mar21

Kit de Sobrevivência XXIII - Meghan, The Duchess of Sussex

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No dia 8 de Março celebramos o Dia da Mulher. A UN Women define a necessidade de celebrar este dia pelas seguintes razões:

1) Celebrar e refletir no progresso conseguido nos direitos das mulheres;
2) Um dia para exigir o fim da desigualdade de género.


A desigualdade de género é visível em todos os campos da nossa vida, enquanto mulheres: no trabalho, no acesso à igualdade salarial e à progressão da carreira; em casa, na distribuição do trabalho não-pago, i.e., tarefas domésticas, cuidado dos filhos; na educação dos filhos, no acompanhamento a consultas, na própria educação.


Algum progresso tem sido conseguido desde o tempo da minha Avó, mas a minha Avó já era a única mulher que usava calças na sua vila, não estudou porque gostava mais da vida social, pintava o cabelo de loiro e fumava o que era um escândalo numa pequena vila do Centro de Portugal.


A minha Mãe participou em movimentos estudantis na altura do 25 de Abril, fez dois cursos (num deles já estava grávida de mim), continua a estudar e trabalhar até hoje e é a pessoa mais independente que conheço.


No entanto, não é suficiente. Há ainda, em Portugal e no mundo, meninas e adolescentes, que querem estudar e não podem por motivos familiares ou financeiros, pela religião ou cultura, pela guerra ou desastres naturais, pela fome e pobreza. Isto é inaceitável. Tudo isto é inaceitável.


No mesmo dia, estreou a aguardada entrevista de Oprah aos Duques de Sussex. Ao ouvir Meghan, Duquesa de Sussex descrever o racismo e abuso que viveu senti-me zangada, chocada, triste e incrédula. Ninguém devia sofrer em silêncio.


Por isso, o meu desejo para este dia da mulher é que nos aceitemos por quem somos e não pelo que fazemos, que tenhamos a coragem de usar a nossa voz e criar oportunidades para as que vierem a seguir.

07
Mar21

O silêncio dos inocentes

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16 512 pessoas morreram com covid em Portugal. A maioria provavelmente morreu sem um abraço de despedida, nem sequer um olhar.


Esta semana assinalou-se um ano desde o primeiro caso conhecido de covid em Portugal.


Lembro-me do pânico que se sentia desde Fevereiro, a antecipação dos jornalistas pelo primeiro caso em Portugal. O horror que se vivia em Itália. Nunca esquecerei as imagens dos hospitais em Milão.


É difícil escrever com clareza sobre o que se passou há um ano porque há tanto luto, tanta perda, tanta tristeza. Mas hoje há também esperança: 1 milhão de pessoas vacinadas.


Por estes 16 512 inocentes que morreram sozinhos temos o dever cívico de ser responsáveis, respeitar o confinamento, unirmo-nos na esperança de um amanhã melhor e agradecer as pequenas coisas de cada dia.

03
Mar21

Kit de Sobrevivência XXII - Séneca

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Há uns dias saiu o documentário realizado por Kevin Macdonald "A Vida num Dia 2020", filmado por pessoas de todo o mundo, no dia 25 de Julho de 2020. Este filme é, de certa forma, a continuação do documentário "A vida num Dia 2010", filmado por algumas das mesmas pessoas.

 

A história acompanha o dia de várias pessoas em todas as partes do mundo, desde o amanhecer até à noite. Vemos todas as regiões que o leitor possa imaginar, desde a Sibéria ao Brasil, a Itália, à China e ouvimos, consequentemente, várias línguas e dialetos que nos mostram como o mundo é rico e diverso culturalmente.

 

Nas cenas iniciais, vemos o nascimento dos primeiros bebés de 25 de Julho de 2020, alguns em casa, outros em hospitais muito sofisticados, mas todas as mães acompanhadas. Mostra bem a universalidade da experiência humana, como nascemos e morremos sozinhos, mas, com sorte, de certa forma acompanhados.

 

Depois há uma montagem com as diferentes, mas semelhantes, rotinas matinais: lavar a cara, lavar os dentes, tomar o pequeno-almoço. Mas também um vídeo tocante de um homem no Reino Unido que perdeu tudo na pandemia, que refere: “está na hora de mudar de sítio, nós, os invisíveis, tornamo-nos demasiado visíveis a esta hora”. A pobreza também pode ser encontrada em todo o mundo.

 

Ao longo do filme, algumas imagens são enternecedoras, outras devastadoras, as experiências humanas são tão diversas e complexas ao longo do dia quanto a dimensão do nosso planeta.

 

Há muitas coisas que nos unem enquanto espécie: todos nascemos; todos morremos; todos temos necessidades fisiológicas; (quase) todos ficamos doentes em alguma altura das nossas vidas; todos choramos, todos rimos; todos precisamos de amar e ser amados. No fim, três coisas são universais, independentemente da sua forma: amor, família, esperança.

28
Fev21

S.O.S. Racismo!

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Há umas semanas quando saiu a reportagem da SIC “A Grande Desilusão” escrevi uma crónica sobre a proliferação da extrema-direita em Portugal. Não a publiquei porque, depois de ver a segunda parte da dita reportagem, tive medo.


Percebi que algumas das pessoas envolvidas no partido de extrema-direita português pertencem realmente a grupos organizados que cometem crimes de intimidação, tentativa de homicídio, crimes de ódio e atentado à integridade pessoal.

 

Esta semana passou no programa do James Corden “Late Late Show”, em estilo divertido americano uma entrevista com o Príncipe Harry, no qual explica porque saiu do Reino Unido. Quando James Corden lhe pergunta sobre a série “The Crown”, Harry responde que não tem nenhum problema com uma série baseada num período histórico, o seu desagrado começa quando alegados jornalistas publicam incessantemente histórias fabricadas para alimentar uma narrativa racista contra Meghan Markle, sem que a máquina do Palácio a proteja. E foi por isso que saíram da “Família Real”, não da família.

 

Também nesta semana, uma Professora minha, das pessoas com quem mais aprendi durante a minha vida académica, viu-se envolvida numa polémica por ter dito a seguinte frase “Cientificamente, não existe racismo de negros contra brancos”. Pessoalmente, penso que poderia ter sido dito de outra forma, apenas por ser fácil descontextualizar e banalizar o conhecimento científico em Psicologia.


O que penso que a minha Professora queria dizer, é que o racismo é um sistema, profundamente enraizado na nossa cultura e que historicamente beneficia os brancos em detrimento dos não brancos, particularmente dos negros. Pela nossa história, por termos sido mestres e termos não só escravizado negros, mas forçado a sua ida para a América em condições miseráveis, nós, portugueses brancos, somos o sistema.


Não sei qual será a utilidade de agora olhar 500 anos para trás à procura de respostas, mas não me cabe a mim fazer esse juízo de valor. O meu desejo seria manter a história e enriquece-la com mais factos sobre as conquistas dos negros e, particularmente das mulheres negras..


E, doravante, pensar e agir, sobre como podemos elevar os nossos irmãos negros? Especialmente as mulheres que são, segundo as sondagens da ONU, as mais desfavorecidas no mundo. Por um mundo sem medo, mais justo, mais igual.

24
Fev21

Kit de Sobrevivência XXI - Walt Whitman

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Ultimamente tenho-me debatido com o que escrever, caro leitor. Se escrevo para mim, parece egoísta e narcisista; se escrevo para si, quem quer que o leitor seja, estou a adivinhar as suas expectativas, crenças e valores e, portanto, a comprometer os meus.


Talvez por ter sido operada, por me ter sido retirada uma parte de mim e oferecida uma parte da ciência, ultimamente tenho dificuldade em encontrar consistência na minha escrita, em encontrar a minha personalidade, como se este troca de partes alterasse o equilíbrio que conhecia.


Quando tenho estes períodos não há nada a fazer, a não ser ficar em silêncio. Resguardar-me do mundo, procurar além do silêncio na imensa escuridão e incerteza. Meditar e ouvir o meu coração.


Esta semana dei por mim a pensar na solidão que muitas pessoas estão a viver nesta altura. Não é preciso passar 40 dias e 40 noites num deserto para se sentirem particularmente sós, porque muitas pessoas viram as suas vidas despidas de trabalho, família e, muitas vezes, alegria. Por isso a Quaresma, por si só, um período de sacrifício, tornou-se quase um mês como os outros - um mês de abstinência, de ausência.

 

Talvez por esse motivo este decidi dedicar este período à presença consciente, à entreajuda, à minha comunidade. Não é muito, eu sei, pode parecer até superficial à partida. Mas servir sempre foi a maneira que encontrei para me encontrar a mim mesma. No confronto e conforto do outro, encontro-me a mim mesma. E, quem sabe, as minhas crónicas ganhem coerência novamente.

 

13
Jan21

Kit de Sobrevivência XV - Séneca

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Confinamento II

 

Tal como esperado, voltamos a confinar. O Natal foi, para mim, assunto tão penoso que nem consegui abordar aqui neste espaço das pequenas coisas. Talvez porque, olhando agora com a distância devida, o Natal é mesmo uma grande coisa, um daqueles grandes momentos: de união, paz e harmonia.

 

Na minha família somos tantos que temos de celebrar em vários dias e há ainda as festividades entre a família nuclear, primos e a “nova” família. Mas não neste ano. Neste ano, festejámos em núcleo, em tal proximidade que permitiu realmente viver o espírito do Natal: família. Nem por isso deixámos de celebrar, com receitas novas, mesas requintadas e até novas tradições. Por isso, o Natal acabou por se revelar um dia bonito e íntimo.

 

Mas não conheci o meu novo priminho, não abracei os meus Tios e primos, não brinquei com a minha afilhada nem os meus primos pequenos, não os vi a antecipar a chegada do Pai Natal barrigudo e confuso com os presentes a abarrotar e a precisar de ajudantes. Mesmo a escrever estas palavras, as lágrimas insistem em querer deixar os meus olhos. Recomponho-me porque é importante o que quero dizer. Importante para mim, para o mundo quero lá saber.

 

Perdi estes momentos todos, ganhei novas tradições, mas muita gente, pessoas que não conheço, amigos de amigos de amigos, decidiram passar o Natal como se nada se passasse. O nosso próprio Presidente da República disse em entrevista que ia fazer 3 Natais como se fosse “antigamente” (i.e., pré-covid). E agora, como os jornalistas adoram dizer, “calhou-nos a fava”. É que eu detesto mesmo bolo-rei.

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